Algumas pessoas têm uma segunda chance para viver, mas o que nem todas sabem é que nem todas são obras do acaso. Não costumava acreditar em entidades de um submundo que podem controlar os fatos do destino. Pelo menos não até agora.

Dias antes...

– Nate para mim chega! – gritei e sai por a fora. Estava cansada de um relacionamento conturbado. Por mais que você ame uma pessoa não da para aguentar por muito tempo ataques de ciúme exagerados. Eu não era um pássaro pra viver preso em uma gaiola, não poderia parar só pra isso.
Corri pelo parque sem nem ao menos observar o caminho por onde passava, só queria sair de perto de Natanael Spencer, meu namorado desde o ultimo ano do colegial e agora noivos. Nos conhecemos graças a um projeto de duplas proposto pelo professor de química, e passamos a ser amigos. Quando o pai dele morreu eu fui a única pessoa com quem ele costumava conversar. Talvez porque eu não havia conhecido o meu. Mas isso não vem ao caso, não agora.
– Sabrina! – ouvi a voz dele me gritar e virei para trás pronta para lhe gritar que eu precisava de um tempo, que ele me sufocava dentre outros discursos de nossas brigas corriqueiras.  – Por favor Sah me perdoa... Eu...
Qualquer palavra do discurso barato de Nate sumiu de meus ouvidos, um descontrolado veio e nossa direção e tudo o que me lembro é da luz branca dos faróis ofuscando meus olhos, e do olhar apavorado de Nate enquanto um grito de “NÃO” ecoava nos meus ouvidos.
Acordei horas depois no hospital,  já havia amanhecido e o sol tentava vencer a batalha com as nuvens cinzentas e pesadas que cobriam todo o céu. A primeira palavra que  saiu dos meus lábios foi o nome dele. Eu podia estar brava na hora, podia querer mata-lo eu mesma por ser tão ciumento. Mas agora tudo o que eu queria era olhar em seus olhos cristalinos e dizer o quanto eu o amava. Porém não foi isso que aconteceu.
– Como assim coma em estado agrave? – perguntei exasperada a enfermeira.
Ela me explicou que quando Nate foi atingido pelo veiculo seu corpo fora arremessado e batera em um banco. Havia quebrado duas costelas, mas o ferimento mais grave era em seu crânio, dois coágulos haviam se formado e se não diminuíssem ele poderia morrer. Meu mundo desabou nesse momento. Ele estava correndo risco de morto, mas era eu quem me sentia morta.
 Tive alta do hospital em menos de uma semana, misteriosamente eu não havia sofrido tantos ferimentos. E meu organismo respondeu bem aos medicamentos. Já Nate continuava do mesmo jeito, um dos coágulos havia desparecido, mas ele não acordava.
Talvez eu seja uma pessoa masoquista, mas voltei ao parque. Era noite e olhar para o lugar onde tudo aconteceu me causou um sentimento estranho. Como se eu revivesse a cena. Se eu não tivesse saído correndo feito uma louca Nate não estaria entre a vida e a morte agora. Certamente estaríamos brigando, mas ele estaria bem.
– Faria qualquer coisa pra mudar isso. – sussurrei ao vento entre soluços e lagrimas.
– Talvez você possa. – ouvi uma voz masculina dizer.
Virei-me para traz assustada. Um homem alto, usando sobretudo preto e chapéu fedora da mesma cor caminhava em minha direção. Pensei em correr, mas minhas pernas não parecia receber a mensagem enviada pelo meu cérebro. Então fiquei parada observando aquele estranho se aproximar.
– Quem... Quem é você? – odiei a mim mesma estar tão visivelmente apavorada a ponto de gaguejar.
– Alguém que pode te ajudar.  – o canto esquerdo de sua boca se curvou pra cima em um sorriso, mas aquilo não me passou confiança, muito pelo contrário.  “Pense em Natanael” – a voz soou na minha mente, o observei ainda mais apavorada. Mas ele tinha razão, se havia alguma forma de salvar.
– O que você pode fazer? Como pode me ajudar? O que é você? – as perguntas saíram como um jato antes mesmo que eu pudesse controlar.
O homem riu ruidosamente, o som era sedutor, mas um alerta de perigo soou no fundo de minha mente, e como que para confirmar isso um arrepio gélido correu meu corpo quando o estranho colocou uma mecha do meu cabelo  que chicoteava ao vento atrás da minha orelha. Apesar disso ainda havia Nate.
– Posso fazê-lo viver, mas isso vai depender do que eu ganhar em troca. Quanto ao que eu sou, você deveria descobrir sozinha... – falou ele se virando para o lago enquanto dobrava o sobretudo no braço.
Uma ideia passou-me pela cabeça, mas não se encaixava, ou talvez... Ele era belo, até demais para um mortal, a postura misteriosa. Quando pensava em completar os outros item um vento forte soprou pelas arvores, jogando meu cabelo contra o rosto, olhei mais atentamente para o homem e tive certeza de minha teoria, A camisa branca tinha um tom quase transparente, em suas costas duas cicatrizes negras começavam abaixo das omoplatas e seguiam até a altura dos rins. Um “V” invertido. A marca de um anjo caído.
Antes que eu desse voz aos pensamentos ele voltou-se novamente em direção a mim. Parecia já saber minha conclusão. O Sorriso sedutor mas repelente bailando nos lábios. Mas uma vez quis correr, no entanto, mais uma vez pensei em Nate, só que agora consegui visualizar o sorriso que eu costumava chamar de meu.
– O que eu tenho que fazer? – me surpreendi com a convicção presente em minha voz.
– Uma simples troca de lugares, e ainda posso deixa-lo vê-lo mais uma vez, se quiser você vira comigo apenas depois que ele acordar.
– Não, você... pode... fazê-lo se esquecer que me conheceu? – perguntei chorosa.
O anjo me olhou curioso. E assentiu estendendo-me a mão. Em um segundo estávamos no parque e no outro estávamos no hospital, ao lado da cama de Nate. Ele parecia dormir. Sua expressão era serena. Olhei de Nate para o anjo, e de novo para ele. Aproximei-me da cama e dei um selinho em seus lábios. Não estava muito contente em fazer isso na frente daquele “homem”, mas essa provavelmente era minha ultima chance.
– Estou pronta. – falei juntando minhas forças.
O anjo caminhou até Nate, passou as mãos sobre sua cabeça e o analisou com uma expressão que não consegui decifrar. Quando se afastou me estendeu a mão.
–Precisamos sair daqui – murmurou baixo, e pude perceber que Nate estava se mexendo.
Um segundo depois eu estava novamente no parque, o homem olhava a agua turva do lado pensativo. Parecia feliz, eu supus que pelo fato de ganhar uma alma nova.
– Ele não vai se lembrar de nada não é? – quis ter certeza.
O anjo me analisou, os olhos semi serrados. Um alerta silencioso de que eu não deveria duvidar de sua palavra.
– Acho que é hora de cumprir minha parte. – falei inquieta.
O anjo veio em minha direção, segurou minhas mãos, e ao contrario do que eu imaginava me deu um beijo na testa. Minhas vistas foram ficando desfocadas, e as bordas se escurecendo, um segundo depois, eu apaguei.
-X-
Já me disseram que no momento em que estamos prestes a morrer toda nossa vida passa em frente aos nossos olhos como um filme, fazendo com possamos ver os melhores momentos de nossas vidas. Pois para mim não foi bem assim. Só havia uma imagem em frente aos meus olhos, e nem de longe era um filme.
Eu estava sentada em uma poltrona de hospital, minhas costas doíam com se eu estivesse dormido de mau jeito por horas. O céu estava novamente escuro. Nate estava sentado na cama, parecendo confuso. Lembrei-me do anjo, e de algo que ele sussurrou enquanto eu era tragada pela escuridão. Antes que pudesse continuar pensando sobre isso a ficha caiu. Nate estava ali acordado.
Saltei da poltrona e corri até ele abraçando-o e lhe pedindo perdão por sair correndo. Expliquei lhe sobre o acidente e ele se lembrou de tudo aos poucos. Me encheu de perguntas sobre os machucados decorridos do acidente, e me fez girar algumas vezes para olhar para meus braços e outras partes do corpo para ter certeza de que eu estava bem. Logo depois me apertou em seus braços enquanto dizia que o quanto estava feliz por eu não ter me machucado tanto.
Uma enfermeira entrou no quarto, provavelmente devido a agitação do aparelho que media os batimentos cardíacos de Nate. Quando viu que ele estava acordado foi chamar um médico para dar uma olhada nele. Fui tirada do quarto enquanto ele o examinava, o que não gostei muito. Mas aproveitei para ir  pegar um café para mim.
Pequei o copo fumegante e caminhei rumo ao um jardim na frente do hospital, olhei no relógio, eram quatro da manhã. Não me lembrava de nada entre dez horas e o momento em que Nate acordou. Será que eu havia sonhado?
Como se adivinhasse meus pensamentos o vento forte soprou. Algo veio pairando no ar e caiu em frente aos meus pés. Uma pena preta. Agachei-me pegando-a nas mãos, tinha quase o tamanho do meu ante braço. Grande demais para um pássaro. Olhei para o céu encontrando só uma fatia da Lua, nada de estrelas. Um frio gelado correu por minha espinha e eu sabia que não havia sonhado.
-X-
– Sabe que não pode protegê-la das futuras perdas não é Jer? Uma hora ela irá descobrir seu sangue nefilim. – a garota de estatura mediana, feições delicadas me dizia com aquela voz irritante.
– Eu sei, mas não é pecado nenhum um pai cuidar de sua filha. – falei firme, desafiando-a a dizer o contrario.


Por Priscila M. Santos (Lee_Pryh) – 25/01/2012 – 01:50 PM







Músicas da playlist do capítulo:
Complicated - Avril Lavigne |  Gain – Bad Temper |
Decyfer Down - Forever With You |


Reviravoltas


Luana deixou a advogada na cama e seguiu para o próprio quarto, escolheu uma roupa confortável e seguiu para o banheiro. Quando se olhou no espelho agradeceu a si mesma por não ter optado por uma maquiagem pesada na noite anterior, caso contrário teria voltado para casa parecendo um urso panda. Só então notou a situação de seu pescoço, havia marcas de chupões espalhadas na região, que devido à pele branca ficavam ainda mais evidentes do que em qualquer outra pessoa. Xingou baixinho, e tentou puxar na memória a noite anterior, conseguindo, finalmente, se lembrar pelo menos de parte dela.

|| Flashback ON ||


Depois daquele beijo repentino Luana e JaeJoong ainda ficaram algum tempo na boat, deixaram levar-se pela onda de sentimentos que os invadiram durante aquela dança. Haviam abandonado a mesa e decidido por se acomodarem no bar. Ryo acabara consumindo mais alguns copos de whisky, a cabeça da garota já estava girando quando chamou novamente pelo barman. O rapaz já estava vindo atendê-la, mas JaeJoong fez um sinal para que ele não servisse nada a garota.
– Você já bebeu demais por hoje.
O professor estava menos alterado e conseguia raciocinar com certa coerência. Luana protestou dizendo que Jae geralmente gostava de beber, mas esse continuou irredutível. Quando ela levantou-se rapidamente para tentar impor sua presença sentiu tudo rodopiar, tendo de se apoiar no balcão para não cair. Jae a segurou pela cintura e informou-lhe que a noite terminaria ali.
A loira foi levada para o carro a contragosto, sentando-se no banco do passageiro sem nem olhar para o garoto, que resolveu ignorar o comportamento da mesma, restringindo-se a ligar o motor e dirigir. JaeJoong a observava pela visão periférica, Ryo tinha uma expressão de poucos amigos no rosto, o que restava da coerência dela se perguntava que joguinho era aquele que Jae estava tentando fazer. Ele havia sido totalmente sedutor durante algum tempo, deixando-os se entregar o desejo e depois a fizera terminar a noite de uma forma frustrante. Ela bufou, era melhor não pensar nisso, seus olhos deixaram a janela por um instante, mas tomou o cuidado de não olhá-lo. Resolveu ligar o rádio, e assim que o fez, um segundo depois a voz de Avril Lavigne chegou aos seus ouvidos.

Chill out, what you're yelling for?
Fique frio, para que você está gritando?
Lay back, it's all been done before.
Relaxe, isso tudo foi feito antes.
And if you could only let it be, you would see...
E se você pudesse deixar acontecer, perceberia...
I like you the way you are.
Eu gosto de você do jeito que você é.
When we're driving in your car,
Quando estamos dirigindo no seu carro,
And you're talking tô me one on one, but you've become...
E você está falando comigo cara a cara, mas você se torna...

Somebody else round everyone else,
Alguém diferente perto das outras pessoas,
Watching your back like you can't relax,
Se vigiando como se você não conseguisse relaxar
You're trying tô be cool, you look like a fool tô me.
Você está tentando ser legal, mas parece um idiota para mim!
Tell me
Me diga!

Ela riu de escárnio ao ouvir a letra, a canção ironicamente parecia resumir a situação daquela noite. JaeJoong a fitou de soslaio, mas preferiu não falar nada. A verdade era que ele estava preocupado com a garota, caso se deixasse levar por coisas do tipo das que aconteceram mais cedo acabariam causando uma situação da qual poderiam se arrepender depois. Ou talvez ela se arrependesse, já que sua consciência lhe dizia que ele não se arrependeria de ficar com ela nem em mil anos, sem querer riu com o pensamento.

Why do you have tô go and make things so complicated?
Porque você tem que ir e tornar as coisas tão complicadas?
I see the way you're acting like you're somebody else,
Eu vejo que está agindo como se fosse outra pessoa
It gets me frustrated.
Isso me deixa frustada.

Luana o fitou por um momento, os olhos serrados, não estava vendo graça nenhuma na situação, pelo contrario estava chateada com a atitude dele. Resolveu desligar o rádio e voltar a olhar pela janela. Nesse instante percebeu que as ruas pelas quais eles passavam não eram as que levavam ao apartamento dela.
– Para onde você tá indo? – perguntou ainda ríspida.
– Para minha casa. – disse ele.
– Por quê?– perguntou incisivamente. Jae só podia estar tentando confundi-la.
– Há essa hora Pryh e o resto do pessoal deve estar dormindo, e pelo visto você não trouxe chaves logo não vai conseguir entrar. – ele respondeu com um pouco de prepotência na voz, o que não foi totalmente intencional.


Luana revirou os olhos se lembrando de que havia decidido deixar as suas chaves em casa, já que voltariam todos juntos. Ela não tinha outra escolha a não ser aderir ideia do mais velho. Algum tempo depois – os quais foram tomados por um silêncio completo – JaeJoong estacionou o carro na garagem. Assim que ele desligou o motor e as portas foram destravadas Ryo deixou o veiculo sem nem mesmo esperar por ele. Já havia estado ali varias vezes então conhecia bem a casa. Porém quando estava no meio do caminho sentiu que iria cair, mas, novamente, JaeJoong se adiantou dando equilíbrio a seu corpo. Vendo que provavelmente ela não conseguiria manter-se de pé por muito tempo ele a pegou no colo e seguiu para dentro.
Luana estava com a cabeça apoiada na curva do pescoço do rapaz, o cheiro dele estava inebriando-a. Era apenas uma colônia, ele não era muito adepto a perfume, e nem por isso tinha um aroma menos atraente. As leves notas aromáticas misturada à própria essência corporal dele tinham a medida exata para tirar a sanidade mental que restava a fotógrafa. Sua pouca resistência a atitudes idiotas estava se esvaindo na mesma rapidez em que entravam na casa, cada passo em direção a sala parecia deixá-la um pouco mais longe de sua coerência, provavelmente pelo fato de que absolutamente tudo ali tinha parte do próprio Jae.
Quando eles estavam passando por perto do sofá ela usou o peso de seu corpo contra o rapaz, deixando que os dois recaíssem sobre o móvel, e, no meio do processo derrubando algumas revistas que estavam numa mesinha. O professor se assustou com a manobra não conseguindo evitar a queda. Ryo desfez-se de suas sandálias posicionando-se sobre Jae e começou a beijar-lhe o pescoço enquanto suas mãos vagavam indecisas, ora nos braços ora pelo peito do rapaz, deixando os dedos gelados entrarem em contato com a pele sob sua camisa. JaeJoong fechou os olhos com força, xingando seu corpo por reagir tão rapidamente aos movimentos da garota, mal percebeu suas mãos fechando-se em torno da cintura da loira e trazendo-a para perto de si, enquanto buscava lhe boca e deixava que sua mente se concentrasse apenas na maceis dos lábios dela. Luana deixou um gemido de satisfação escapar ou senti-lo retribuir o beijo e depois prender o seu lábio inferior entre os dentes puxando-o devagar.
JaeJoong se virou rapidamente, apoiando o peso em um de seus braços, passou então a dar atenção ao pescoço da garota, distribuindo beijos e mordidas, sua mão livre fazias leves, porém provocantes, caricias na cintura e lateral do corpo de Ryo, vez ou outra descendo até suas coxas, levantando lhe a saia, apertando a região. O que causava suspiros e gemidos abafados na loira que mantinha suas mãos vagando por todas as partes que conseguia alcançar do corpo do outro, rindo divertida quando sentia os músculos do corpo dele se retraírem em contato com suas unhas. Jae levantou-se puxando a garota consigo, seguiu andando de costa procurando as escadas que levavam ao andar de cima. No percurso derrubaram varias coisas, mas finalmente conseguiram começar a subir os degraus sem quebrar o beijo. Vez ou outra tinham de parar para se equilibrarem, o que causava risos de ambas as parte. Quando os dois finalmente chegaram ao quarto principal ele puxou-a consigo para a cama, distribuindo chupões que provavelmente deixariam marcas, mas que naquele momento não era algo com que se preocupassem. Luana puxava o cabelo dele o estimulando a continuar, as mãos do rapaz desceram rapidamente até a parte inferior da blusa dela, subindo-a aos poucos.

|| Flashback OFF ||

Ryo arregalou os olhos para seu reflexo, como ela havia conseguido esquecer aquilo? E mais importante, ela tinha gostado muito de lembrar e reviver as sensações da noite anterior. Tentou dispersar os pensamentos para processá-los e entrou na ducha, deixando que a água levasse a tensão ralo abaixo. Depois de se secar, trocar de roupas e disfarçar a situação do pescoço com maquiagem seguiu para a cozinha, fez um sanduíche para si e voltou para o quarto de Pryh.
Assim que passou pela porta do quarto da mais nova se lembrou de algo. Caminhou lentamente enquanto organizava suas ideias, a advogada não percebeu nada em um primeiro momento, pois seus olhos estavam concentrados numa revista. Mas, assim que a loira chamou-a sua expressão denunciou que já esperava uma “proposta indecente” vinda da fotografa.
– Porque tá me olhando desse jeito? – perguntou a morena assustada.
– Bem, estava pensando uma coisa, ontem o Jae cumpriu pelo menos a parte do beijo, até melhor do que o necessário. Então, acho que você vai precisar marcar as aulas com o DongHae.
Priscila semicerrou os olhos, pensou seriamente em argumentar que ele não havia cumprido a aposta para todos verem, mas estava claro que havia ido até além dela. Enquanto seus neurônios trabalhavam para tentar sair disso Luana apenas lhe sorria daquele modo que a fazia parecer uma criança, uma pequena e linda garotinha que iria aprontar algo.
– Pryh, não adianta tentar fugir, aposta é aposta. – sentenciou.
– Não estou fugindo, mas hoje é domingo, e amanhã tem a entrevista, e se tudo der certo vou estar ocupada com os tramites da mudança de emprego. E se não der tenho que fazer a revisão de final de mês dos estagiários.
– Tudo bem, eu mesma marco os horários depois que resolver isso tudo. Aposto que vai poder usara as aulas para relaxar um pouco. Só que, já aviso, você não vai escapar disso não! – advertiu.
A advogada bufou, já esperava uma resposta do tipo, e ela bem sabia que não conseguiria contornar aquela situação, então só lhe restava concordar.

-X-

Três semanas, esse pode ser considerado um tempo curto para algumas pessoas, mais é tempo suficiente para vários acontecimentos. E, às vezes, podemos nos surpreender pela quantidade de eventos que podem decorrer nesse pequeno intervalo de dias. Em menos de um mês várias coisas ocorreram na vida das garotas, a começar por Kelle. Essa ficou extremamente feliz ao saber que com o balanço do mês e orçamento da nova pela finalizados SiWon não teria motivos para ir diariamente a companhia de teatro. Não viu nem sinal do rapaz por duas semanas, e na terceira só soube de sua presença graças ao Nissan GT-R SpecV chumbo parado no estacionamento. Por outro lado, HeeChul parecia querer compensar a falta do contador, além das já rotineiras brigas, com as quais todos haviam aprendido a ignorar o coprodutor “conseguiu”, não intencionalmente, que o fotógrafo que cuidaria dos novos pôsteres e fotos diversas do elenco se demitisse. O motivo? Suas constantes interferências no trabalho do rapaz.
Não é necessário dizer que a produtora ficou louca quando soube, e mais irritada ainda quando o encargo de achar alguém competente recaiu sobre si. Por sorte ela se lembrou do fato de que o Sr. David, presidente da empresa dona da companhia de teatro, era um velho amigo do Sr. Kwon, dono do clube onde Luana trabalhava. Com isso ela explicou a situação para seu superior que não viu problema algum em pedir esse favor ao amigo. Principalmente pelo fato de que já conhecia o trabalho de Ryo, e porque provavelmente não conseguiriam um fotografo a altura em tão pouco tempo. A condição negociada pela concessão do trabalho a fotógrafa foi que as duas festas – uma depois da estreia da peça e outra depois da ultima apresentação – fossem realizadas no Posiedon’s Club, o que convenientemente traria um pouco mais publicidade ao local.
Ryo a principio se surpreendeu com a proposta, mas depois de pensar achou-a perfeita para o momento, já que JaeJoong e ela vinham se evitando depois daquele fim de semana. Os dois tinham os próprios motivos para não querer se falar fossem eles vergonha, frustração e até um pouco de raiva e magoa. A garota não sabia como encará-lo e ele reprovava a atitude que a mesma havia tido.
Contrária à semana turbulenta das duas colegas de trabalho Anabell estava radiante, seu trabalho na clinica ia de vento em polpa. Não teve tanta dificuldade de adaptação com o novo “publico alvo”, pelo contrario, por ser mulher era ainda mais pratica em ter conversas com as cliente, que ainda eram maioria na busca por melhorias em seus corpos. Além disso, a constante supervisão de LeeTeuk não a intimidava, provavelmente pelo fato de que graças a sua atitude descolada havia aprendido a vê-lo não só como um chefe, mas como um colega.
De todas as garotas quem teve mais reviravolta em pouco tempo foi Priscila. Na primeira segunda feira, apesar de todo o nervosismo, ela conseguiu sair-se bem na entrevista. E, na sexta-feira da mesma semana, recebeu a noticia de que deveria comparecer ao prédio da Thêmis, em um dia determinado, para se apresentar a seu supervisor e começar um período de experiência. Com isso as outras duas semanas que sucederam foram ainda mais complicadas, e, cheia de reuniões nas quais foram determinadas as pessoas que ficaram com seus antigos casos, e outras instruções para os colegas da equipe. Por vezes ela ficou até além de seu horário de trabalho para deixar todos os estagiários e o novo advogado que assumiria seu lugar a par do máximo de informações possíveis. Graças a seus esforços seus, agora ex, colegas de trabalho recompensaram-na com uma festa de despedida memorável.
Enquanto isso Henry que aparentemente seria o único a manter uma rotina não muito complicada, surpreendeu-se em se ver envolto em uma onda de problemas com a empresa. Graças ao rebaixamento da nota de “bom pagador” dos Estados Unidos, a empresa de seu pai começou a ter problemas com alguns sócios e até uma mínima queda em suas ações. Com isso, seu suposto período de quase descanso se tornou um pequeno inferno, já que o pai do rapaz, aproveitando-se da presença do filho em terras estadunidenses pediu que o mesmo convocasse o conselho da empresa e apaziguasse os ânimos dos que estavam fazendo alvoroço. Essa “pequena tarefa” foi o suficiente para fazer Henry trabalhar ainda mais arduamente do que geralmente fazia, mesmo quando estava no Canadá.
Em principio ele não se importou tanto, apesar do esforço demasiado que as reuniões extensas e as discutições demandavam, ele sabia que resolveria o problema com mais eficiência do que um subordinado. Além disso, com a rotina corrida das garotas e o novo trabalho da melhor amiga ele passaria a maior parte do tempo sozinho no apartamento, e isso não parecia tão atrativo. Porém, não conseguiu deixar de ficar chateado quando soube que teria uma reunião logo pela manhã e não poderia levar Pryh ao primeiro dia de trabalho, como havia prometido.
Resolveu então que a mimaria do melhor jeito possível, ao invés de deixá-la preparar o café da manhã arrastou-a para um coffeeshop onde tiveram tempo para conversar. Isso acabou deixando a tensão do primeiro dia na Thêmis de lado. Enquanto estavam ali naquele café não havia preocupações que não fossem seus cappuccinos e cupcakes. Ou pelo menos foi assim no início, já quando Pryh estava quase terminando o café o ser mais inconveniente para aquele momento apareceu, fazendo com que a garota fechasse a cara. Por sorte ele não pareceu notá-la, e foi fazer seu pedido.
Henry olhou em volta buscando o motivo da mudança de humor da melhor amiga, porém seus olhos se prenderam a garota que estava com DongHae. Morena, cabelo no meio das costas, saia de babadinhos, camiseta cinza com um lanço assemelhando-se a um dos tecidos da saia. De alguma forma o jeito doce que ela tinha hipnotizou o rapaz.
– Limpa a baba! – Priscila deu um tapão na cabeça do garoto fazendo com que ele derramasse um pouco de seu cappuccino na mesa e a olhasse com os olhos acusadores, porém ao mesmo tempo com uma fisionomia divertida. – Você nunca vai aprender secar uma mulher sem dar na cara? – ela tentou disfarçar o mau humor com um tom de deboche, mas não obteve tanto sucesso.
Henry olhou para o próprio cappuccino, enquanto fazia um bico. Só voltou o olhar para a amiga quando ela resmungou alguma coisa inaudível e passou a atirar adagas com olhar na direção de DongHae que caminhava rumo a mesa deles com a desconhecida em seu encalço.
– Olá! – cumprimento o rapaz gentilmente abstraindo o mau humor de Priscila. – Fico feliz em ver que está realmente melhor.
Os dois não se falaram desde o incidente do terraço.
– É estou. Não tive mais nenhum problema de saúde. – isso não era bem uma verdade já que a garota ainda sentia algumas vertigens, mas não daria o braço a torcer para ninguém.
– Não querem se sentar? – perguntou Henry, o que fez com que Pryh pisasse em seu pé. O garoto olhou para ela tentando camuflar a dor com um sorriso.
DongHae não percebera pois nesse momento também fora atingido por uma cotovelada da garota ao seu lado, mostrando que ele havia esquecido de apresentá-la. Pelo menos na opinião do professor ele não era o único com problemas de memória ali, já que o rapaz que os convidara para sentar – embora Dong soubesse de quem se tratava – não havia sido apresentando formalmente.
– Claro, mas antes. Thi essa é Priscila nossa vizinha, Pryh essa é Thiarlley irmã do meu colega de apartamento.
– Prazer. – a advogada falou no tom mais controlado que conseguiu, já que após ouvir o nome da desconhecida, inconscientemente tomou uma postura levemente ranzinza.
 Henry limpou a garganta impondo sua presença. Não havia gostado nem um pouco de ouvir o apelido da amiga vindo da boca daquele homem.
– Henry, esse é DongHae, colega de trabalho da Luana. DongHae esse é Henry meu melhor amigo.
Intencionalmente, ou não, a advogada nem se quer olhou para Thiarlley ou lhe dirigiu a palavra enquanto apresentava o amigo.
– Prazer em conhecê-los. – falou ele lançando um sorriso aberto para a garota e um mais contido ao rapaz. – Sentem-se.
DongHae assentiu e se sentou em um dos lados da mesa, a morena se dirigiu ao outro. O que deixou a situação ainda mais desconfortável. Thiarlley mais uma vez observou essa atmosfera, nenhum dos rapazes pareciam gostar muito um do outro. Ela teria de descobrir porque, além de saber o motivo da outra garota parecer tão incomodada com a presença deles ali.  Ou seria apenas dela? Sua resposta não teve tempo de ser tirada a limpo, pois o celular de Priscila começou a tocar, a garota pediu licença para atender e logo voltou informando que precisava ir trabalhar. Ela e Henry se despediram e saíram do coffeeshop. DongHae manteve seus olhos fixos nos dois até sumirem de vista.
– Hey, ainda tá nesse planeta? – perguntou a mais nova ao rapaz.
– Desculpe o que disse?
– Perguntei o que foi que aconteceu aqui. Vocês pareciam muito tensos, e meio que se repelindo. – Thiarlley achou melhor não dizer tudo que estava passando por sua mente.
– É uma longa história e que não vem ao caso agora. Melhor tomar seu café. – desconversou ele votando os olhos para seu cappuccino.

-X-

Priscila havia deixado Henry dirigir até a empresa onde seria a reunião, por sorte não ficava muito longe da Thêmis então eles poderiam pegar carona um com outro quando quisessem. Ela ainda estava apática, mas não entendia bem qual o real motivo de ter ficado tão incomodada. Pela simples presença de DongHae, por Henry não saber disfarçar estar secando a tal de Thiarlley, ou ainda, pela presença da garota, em relação a ambos.
– Melhora essa cara vai. – pediu Henry pegando em sua mão. Estavam parados num sinal vermelho.
Ela olhou para o amigo, ainda estava bicuda, contudo assim que seus olhos encontraram os dele o garoto fez uma de suas carinhas de cachorro sem dono. Apenas isso bastava para que ela não conseguisse ficar carrancuda por muito mais tempo.
– Isso é golpe baixo okay? Vou te deixar a pé para parar de ser chantagista.
Ele riu e deu uma mordida na bochecha da garota fazendo-a rir, logo em seguida o sinal abriu e Mochi virou à direita e parou de frente ao prédio da empresa em que teria a reunião. Priscila desceu do Elantra, agora seguiria sozinha para seu novo local de trabalho. Antes de posicionar-se no banco do motorista ganhou um abraço apertado de Henry que lhe desejou boa sorte e depois entrou no prédio. Ela respirou profundamente, abriu o porta-luvas buscando seu CD favorito do Decyfer Down.  Não queria pensar no que havia acontecido, muito menos se estressar por isso deu play no rádio e seguiu pelas ruas deixando que a letra de “Forever With You” fosse à única coisa a ocupar sua mente. 
Ao chegar à companhia foi avisada de que o seu supervisor a aguardava, o que fez com que nem tivesse tempo de conhecer sua própria sala. Seguiu para o escritório que lhe indicaram, parou em frente à porta rezando mentalmente para que o seu superior não fosse um mala. Ouviu um “entre” vindo do outro lado da porta. A voz pareceu agradável aos seus ouvidos, e de certa forma, familiar. Quando adentrou no recinto um moreno alto estava de costas para a porta, falando ao telefone. Uma mulher de meia idade anotava algumas coisas, e logo que viu Priscila fez sinal para que ela se sentasse em silencio enquanto o chefe terminava a ligação. Quando finalmente terminou o telefonema e se virou Pryh agradeceu por já estar sentada, o rapaz era ninguém mais ninguém menos que o mesmo homem que a ajudara no elevador no primeiro dia em que o Audi estava em sua vaga. O moreno semicerrou os olhos já puxados tentando se lembrar de onde conhecia aquele rosto, e poucos segundos depois seu rosto se iluminou. O momento “surpresa” foi interrompido pela assistente que entregou um dossiê ao advogado, saindo do escritório logo em seguida,
– Priscila Santos? Prazer, sou Choi SiWon. – ele estendeu-lhe a mão sobre a mesa sorrindo de forma gentil. – Finalmente estamos devidamente apresentados! – brincou ele rindo. Isso serviu para quebrar o que restava da tensão de um primeiro dia de trabalho.
SiWon explicou todas as tarefas que Priscila teria de cumprir, ela faria mais ou menos o mesmo trabalho da antiga empresa, porem dessa vez além dos estagiários teria alguns casos a mais para resolver por si, sendo assistida por SiWon. Outra pauta da pequena reunião foram às peculiaridades da burocracia no Grupo Thêmis, o que não fora nenhuma surpresa para Pryh, já que com sua fixação em um dia trabalhar na empresa ela já conhecia praticamente tudo. Reunião encerrada ela pode finalmente se dirigir para seu novo escritório.

-X-

Naquela manha Anabell realizou uma das cinco cirurgias que teria de fazer durante a semana. Seus movimentos e desenvoltura durante o implante das próteses de silicone em sua paciente eram precisos e seguros. LeeTeuk – que supervisionava a operação de uma das salas interligadas por uma painel de vidro – estava extremamente satisfeito com a competência da cirurgiã, esse era o requisito final para mantê-la na clinica. A garota mantinha uma naturalidade e calma em suas ações durante os procedimentos, essa postura gerava um estranho fascínio sobre o médico.
Depois da cirurgia e uma breve consulta para observar o estado da paciente, ainda sob os olhos vigilantes do mais velho, Bell teve um peso tirado de suas costas. Receberas ótimos elogios de seu superior, com direto a um sorriso estonteante. Embora fizesse de tudo para disfarçar o máximo possível sua euforia, tentando não parecer uma estagiária ao invés de uma médica formada, os olhos da garotam ganharam um brilho especial após oficialmente liberada do “período de experiência”.
O problema era o fato de que algumas das outros medicas residentes também repararam na animação desnecessária, segundo suas próprias opiniões, que estava existindo entre os dois. LeeTeuk em geral era sim atencioso, mas com Anabell sua simpatia atingia um grau mais elevado. Uma especulação sobre protecionismo surgira ali, mas como a médica parecia alheia a isso, o boato acabou definhando-se em um primeiro momento.

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Kelle estava a ponto de jogar o script da peça na cabeça de HeeChul que insistiu com a ideia de que uma das cenas deveria ser modificada. O roteirista que escrevia a história não estava muito diferente, porém ele pelo menos admitia que o coprodutor buscasse melhoras. Já a garota queria matar o infeliz que havia recomendado aquele imbecil para o diretor da companhia de teatro. Resignada deixou a sala de ensaio para que ele ficasse cuidado da sua preciosa cena, enquanto ela se dirigia a área do figurino para chegar se as últimas peças haviam chegado já eu a estreia seria em breve. Além disso, o show não poderia parar, principalmente por um homicídio doloso.
Por sorte ela logo se distraiu com a conversa que Ryo e a figurinista estavam tendo sobre a escolha das roupas para o photoshoot da segunda rodada de cartazes que fariam. As duas acabaram pedindo a opinião da coprodutora, trazendo um debate bem produtivo até a chegada de HeeChul.
– Te deixo um segundo e você já vem bater papo? – alfinetou.
– Que eu saiba escolha de figurino não é ficar batendo papo a toa, e sim um trabalho que ela tem de fazer. – Luana respondeu automaticamente.
Kelle riu, adorava as respostas afiadas da menor, principalmente se essas eram direcionadas a HeeChul. E isso vinha acontecendo bastante o que deixava Ryo frustrada, já que a fazia pensar que a primeira impressão que tivera do rapaz no restaurante fora positiva. A postura que ele adotava durante o trabalho parecia ser um confronto com qualquer atração momentânea do passado.
– E então, pelo menos já devem ter a lista de figurino. – questionou ele, ainda com um tom de superioridade na voz.
– Parte dela, estávamos terminando quando você interrompeu. – Ryo replicou com um sorriso mordaz bailando nos lábios.
– E se você nos der licença. – Kelle emendou – Ficará tudo pronto mais rápido.

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Nota Autora: Faz tanto tempo que escrevi esse capítulo que nem sei muito o que dizer sobre ele, então só peço que deixem sua verdadeira opinião^^

[ Leia o Capítulo 15 ]




Ao Som de:

Acordei desnorteada, olhei em volta sem entender onde estava, um cômodo quase totalmente escuro, salvo por pequenos feixes de luz que entravam pelas frestas dos vidros quebrados, os outros estavam tão encardidos que não deixavam a luz dos postes passar. Um odor acre que fazia meu estomago embrulhar invadiu minhas narinas. As náuseas faziam minha cabeça girar, dificultando ainda mais minha deplorável tentativa de entender como havia chegado a tal recinto.
Tentei me levantar, um erro grave, meus músculos gritavam. Algo também me mantinha presa. Pela primeira vez realmente olhei para mim, dei uma boa olhada no que antes era um belo vestido que usara na noite anterior para ir a um pub. “O Pub.” Meus pensamentos se voltaram para a ultima hora que ainda conseguia lembrar. Lembro-me de estar dançando com Lizzie e de repente avistar um par de olhos conhecidos, o sorriso enigmático de Adam fazia meu corpo gelar, e nem sempre de maneira agradável. Minha amiga me chamou para ir embora, mas lembro-me de ter dito que não sairia dali por culpa de um affair de uma noite ou outra. No começo ela pareceu não se preocupar, porém logo se desencanou, continuamos dançando até que me cansei e fui me sentar ao bar.
Enquanto bebia eu podia sentir seus olhos grudados em mim, mesmo sem olhar para traz, isso havia tornado-se constante de algum tempo para cá. Confesso que já havia momentos em que me sentia apavorada, mais em outros, acabava cedendo e me deixando levar pela adrenalina, e isso sempre acabava por terminar num motel barato de beira de estrada.  No entanto, aquele lugar não era nem de longe um motel barato, e desconfiava que aquelas cordas em torno de meus pulsos  não eram fruto da pratica de bandage.
Desajeitadamente passei a mão pelo rosto tentando tirar os cabelos dos olhos e vi que o lado direito do meu rosto estava pegajoso. Quando olhei para meus dedos eles estavam manchados por algo rubro que só então fui perceber ser sangue, meu sangue. A dor de cabeça que eu julgar ser apelas uma combinação de provavelmente ter batido a cabeça combinada a ressaca era um pouco mais grave do que pensei.
– Vejo que finalmente parece acordada. – Adam aparecera por uma porta que eu mal havia notado. A luz que entrara pelo local iluminou um pouco mais o lugar, parecia um quarto de uma casa abandonada.
– O que... – tentei argumentar mais ele foi mais rápido sentando-se ao meu lado e tapando minha boca.
– Shhh...  Para que todo esse pavor Zoe? – perguntou ele em meu ouvido, antes de se afastar. Seu hálito revelava alto teor alcoólico.
Fitei seus olhos negros temerosa, Adam também não parecia em todo seu ápice, o rosto, braços e ombros estavam arranhados, e não do jeito bom. Flashs de uma briga da noite anterior me passaram pela mente. Ele tivera mais um de seus ataques obsessivos quando me beijar outro cara. Arrastou-me da boate e me levara por um beco e depois...
– Sobre o que esta pensando? – pergunto beijando meu ombro. Encolhi-me, tudo o que eu conseguia sentir era nojo. Segurou meus braços firmes e voltou a beijar o local. – Não me force a te punir por ser uma garota má novamente. – disse de forma calma, mas ainda assim medonha.
– Porque não me solta? – ser agressiva parecia que só pioraria as coisas.
– Pelo fato de não querer que nenhum de nós se machuque. – disse ele levantando-se de repente. – Não por enquanto... – concluiu encostando-se em uma mesinha, algo reluziu em cima da madeira, tremi ao reconhecer que o brilho vinha de uma faca.
– O que você quer Adam? – perguntei dessa vez não contendo a raiva.
– Algo que ao que parece você não pode me dar. – ia dizer algo mas Adam me ignorou e passou a brincar com a lâmina – Uma vez me disseram que quanto mais você conhece o amor mais você se machuca, na época me neguei a acreditar, mas agora não sei se isso é tão errado. – ele riu sem humor.
– Adam desde quando um de nós falou em amor? Saiamos uma vez ou outra e acabávamos na cama para nos divertir, esquecer um pouco desses problemas.
– Divertir? – ele explodiu – Você acha que é divertido quando te vejo dançando ou se agarrando com outros caras? Que foi divertido hoje quando aquele filho da puta estava praticamente te comendo no meio da pista de dança?
– Isso só é fruto de sua obsessão! Não pedi para você freqüentar todos os lugares que eu vou. – gritei de volta.
– Zoe... Zoe... Você realmente nunca deve ter sabido qual é a dor de amar alguém que não te ama não é?
 Adam perguntou se aproximando como um felino que ronda a sua presa. A alguns dias teria achado tal movimento sexy. Ele sentou-se ao meu lado, os olhos vermelhos fitando meu rosto de uma maneira estranha. Sua mão livre segurou meu queixo pressionando entre seu polegar e os outros dedos e o virando para o lado. Pelo canto do olho o vi um sorriso que me deu medo formar-se em seus lábios enquanto ele me observava o medo já devia estar visível em meus olhos.
Segundos depois senti o frio da lamina roçar minha pele, e em menos de um milésimo se transformar em uma espécie de queimação que ardia em meio ao liquido quente que sentia escorrendo. Debati-me tentando me livrar de Adam, ele foi mais rápido e me empurrou se posicionando sobre minhas pernas, enquanto as deles permaneceram travadas em torno de meus braços. Seus olhos agora mais negros do que nunca admiravam os desenhos que a ponta da faca fazia em minha bochecha. Lágrimas de dor saíram de meus olhos e entrou em contato com o corte fazendo-o arder mais, um grito ecoou no recinto que só depois percebi ser meu.
– Talvez assim você entenda um pouco da dor que eu sinta... – Disse ele já se posicionando para passar para outro lado do meu rosto.
Ele se desequilibrou enquanto trocava a faca das mãos, a dor trouxera consigo uma descarga de adrenalina ao corpo me deixando mais alerta. Aproveitei desse descuido e o empurrei saindo correndo rumo a porta. Corri pelo corredor empoeirado enquanto escutava Adam me xingando de vadia. Depois do corredor ainda havia um espaço até chegar a escada que ficava do outro lado da parede. Corri o máximo que conseguia levando menos de dez segundos para descer as escadas, mas quando finalmente a porta ela estava trancada.
Adam apareceu no fim do corredor, gritava comigo, mas o único som que eu conseguia ouvir era o do meu próprio coração batendo forte em meus ouvidos. Olhei para todos os cantos, o como que parecia a sala estaca cheio de moveis gasto. Corri para o comôdo mais próximo, uma cozinha. Como imaginei a porta e as janelas do local também estavam trancadas. Não haveria forma de fugir.
Abri uma das gavetas e procurei por algo que pudesse me defender, entre os utensílios achei uma faca semelhante a que havia causado os cortes do meu rosto. Antes de pensar em um local para me esconder Adam apareceu na cozinha. Seus olhos eram pura fúria, não lembrava nem de longe homem sexy que outrora me atraíra. Aquele parado em minha frente era um Adam doente, fruto de uma loucura que consumia sua mente.
– Não se aproxime! – gritei empunhando a faca em sua direção.
– Você vai fazer o que me matar? – perguntou ele rindo – Sinto lhe informar Zoe mas eu já estou morto. E sabe quem foi que me matou? Você e todos seus momentos de sexo casual, todos os momentos em que não viu o quanto nós poderíamos ser bons juntos.
– Adam... – novamente tentei argumentar mais ele me ignorou.
– Nesses últimos meses a única coisa que tenho feito é te amar, e o que ganho em troca? Desprezo. Pois agora se você não pode ser minha não será de mais ninguém. Eu sou o único que pode te tocar... O único ouviu?
Adam andou em minha direção a passos largos, sem pensar coerentemente mirei a faca no meio de seu peito, graças ao impulso que ele tomou não foi tão difícil a lamina penetrar sua caixa torácica. Mas ao mesmo tempo em que sentia o corpo dele amolecendo sentia o liquido quente escorrendo no alto de meu abdômen. A dor me corroia de dentro pra fora e uma náusea escurecia minhas vistas, mas não antes de ver os olhos de Adam se fecharem numa expressão de dor.
Caímos juntos no chão, cada tragado pelos seus próprios definhar de vida, o liquido vermelho de um se misturando ao do outro, e transformando o chão empoeirado em uma poça carmim. A dor me já me deixava entorpecida enquanto via os últimos meses de minha vida passando por meus olhos até chegarem aquele ponto.
– Zoe... – ouvi a voz de Adam, não passando de um sussurro, e depois me deixei levar pela completa escuridão.

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N/A: Meu Deus que fic tensa pra escrever! Fazia tempo que não sentia tanta dificuldade pra botar uma história no papel ou encaixar as idéias. Não gostei muito do resultado, provavelmente porque nunca escrevi uma Deathfics. Mas como a Pry unnie propôs o desafio e a Ryo unnie deu o tema Sangue eu fui escrever né? ~Espero que gostem mais do que eu goste /chata/ 
@LeleChou thanks pela música do TH e pelas fotos.